Investigadora distinguida por trabalho sobre parasitas

Sara Silva Pereira, investigadora do Católica Biomedical Research Centre (CBR) e docente na Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (FM-UCP), foi distinguida com a BSP President’s Medal, o mais alto prémio científico para jovens investigadores de excelência atribuído no Reino Unido na área da parasitologia

 

Esta é a segunda vez que a distinção é atribuída fora do Reino Unido. A investigadora afirma que se trata de uma motivação para a continuidade do trabalho que, com a sua equipa, tem vindo a desenvolver na exploração dos mecanismos de sobrevivência dos tripanossomas. “Compreender estes processos é fundamental para desenvolver estratégias mais eficazes para controlar doenças infeciosas negligenciadas que continuam a afetar milhões de animais e pessoas”, afirma a investigadora, citada em comunicado.

Desde 2023, Sara Silva Pereira lidera o Laboratório de Interações Parasita – Vasculatura, integrado no CBR, onde investiga a forma como os tripanossomas africanos, parasitas responsáveis pela doença do sono, interagem com os hospedeiros mamíferos – gado e humanos -, com especial foco nas células que revestem os vasos sanguíneos, as células endoteliais.

A investigação de Sara Silva Pereira procura compreender como é que o “diálogo” entre o parasita e os vasos sanguíneos afeta tanto a sobrevivência do tripanossoma como a apresentação clínica da doença. Quando um humano ou animal é picado por uma mosca tsé-tsé infetada com tripanossoma, pode formar-se um caroço ou ulceração dolorida localizada, seguida de febre, emaciação, letargia, distúrbios do sono, confusão, e descoordenação motora.  Se a doença não for tratada, é invariavelmente letal. Os parasitas interagem com a barreira hematoencefálica, causando inflamação e danos no sistema nervoso central que podem ser fatais na ausência de tratamento farmacológico. Em animais de produção, a doença provoca reduções acentuadas no desempenho zootécnico, estimadas em 1.5 mil milhões de dólares por ano, e elevada mortalidade, estimada em 3 milhões de cabeças de gado por ano.

O grupo desta investigadora integra abordagens computacionais e de biologia da infeção com sistemas de bioengenharia de tecidos, que permitem recriar ambientes fisiológicos mais próximos dos cenários reais de doença. O objetivo último da investigação que lidera é compreender como os tripanossomas conseguem sobreviver no hospedeiro, abrindo caminho para o desenvolvimento de novas terapias.

Criado em 2019, a BSP President’s Medal é um prémio anual para reconhecer cientistas “em início de carreira que tenham produzido investigação de qualidade internacional, tenham gerado impacto tangível na área da parasitologia e demonstrem potencial para se tornarem líderes mundiais neste campo científico”. Os cinco anteriores recipientes desta medalha foram Mattie Pawlovic, Emma Briggs, Joana Correia Faria, Habil Grzybek e Juan Quintana, nomes cada vez mais salientes no mundo da parasitologia.

Consumos energéticos e inteligência artificial entre os vencedores do Prémio Inovação em Saúde

Iniciativa da Sanofi, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) e da NTT DATA Portugal distinguiu as melhores práticas em sustentabilidade social, ambiental, económica e na transformação digital do setor da saúde em Portugal

Foram anunciados a 26 de novembro os vencedores da 2.ª edição do “Prémio Inovação em Saúde – Todos pela Sustentabilidade”, numa cerimónia que decorreu no Auditório João Lobo Antunes, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL).

Numa cerimónia que contou com a presença de Maria de Belém Roseira e Ana Povo, Secretária de Estado da Saúde, e perante uma plateia de especialistas e profissionais do setor, foram distinguidos projetos de sustentabilidade ambiental, transformação digital e sustentabilidade social.

Na categoria Sustentabilidade Social, o vencedor foi o projeto iSIGHT – Inovação em Serviços Integrados Pré-Hospitalares de Tratamento Oftalmológico (Unidade Local de Saúde de Santa Maria; Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa). O projeto visa implementar o primeiro centro de rastreio de glaucoma e retinopatia diabética totalmente integrado nos cuidados de saúde primários e baseado em Inteligência Artificial (IA). Utilizando um software de IA com elevada precisão, o iSIGHT permite a identificação precoce e eficiente destas doenças oculares, tendo demonstrado, nos pilotos, uma eficácia três vezes superior ao modelo de rastreio tradicional.

Em Sustentabilidade Ambiental, foi premiado o projeto EcoScan – Monitorização de consumos energéticos em Ressonância Magnética (Parceria entre Siemens Healthineers e Luz Saúde). O objetivo é medir e reduzir o consumo energético de equipamentos de ressonância magnética em ambiente hospitalar e otimizar os fluxos de trabalho, para além de avaliar o impacto de software de reconstrução de imagem com IA, de forma a diminuir a pegada ambiental destes equipamentos.

Na categoria Sustentabilidade na Transformação Digital, o vencedor foi o projeto Artificial Intelligence in Digestive Healthcare: See More, See Beyond, Decide Better (DIGESTAID – ARTIFICIAL INTELLIGENCE DEVELOPMENT, S.A.). Criado a partir da necessidade de superar as limitações no diagnóstico de doenças digestivas, este projeto lidera o desenvolvimento de uma plataforma de IA. A DigestAID desenvolve soluções que abrangem múltiplas áreas da saúde digestiva, desde ferramentas para endoscopia e motilidade até algoritmos para cirurgia, com o objetivo de melhorar a precisão do diagnóstico e completar o espectro de cuidados aos doentes.

Nesta edição, o “Prémio Inovação em Saúde – Todos pela Sustentabilidade” fez também o convite aos estudantes do ensino superior, para participarem nas quatro categorias, com um painel de avaliação exclusivo para as candidaturas da nova geração. Os vencedores destacaram-se em duas categorias. Na categoria Sustentabilidade na Transformação Digital (estudantes), foi atribuído o prémio ao projeto ConversAI (Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa). Trata-se de uma plataforma inovadora que utiliza IA para simular Exames Clínicos Objetivos Estruturados (OSCEs), destinada à formação de estudantes de medicina. A ferramenta permite que os alunos interajam com doentes virtuais realistas, treinando as suas competências clínicas, de comunicação e de tomada de decisão num ambiente seguro e controlado.

Já na categoria Sustentabilidade Económica (estudantes), ganhou o projeto AIDrug4Sustainability – Inteligência artificial para o desenho e produção sustentável de fármacos (Gulbenkian Institute for Molecular Medicine).

Este projeto foca-se no desenvolvimento de uma nova abordagem para o tratamento do cancro da mama, utilizando IA para desenhar proteínas terapêuticas inovadoras. Ao contrário dos tratamentos atuais, dispendiosos e de produção complexa, esta tecnologia permite criar fármacos de forma mais eficiente e sustentável, representando um avanço económico e de saúde na biotecnologia.

Foram ainda atribuídas três Menções Honrosas. Na categoria Sustentabilidade Social, o projeto Mobile Kitchen Lab (Município de Benavente) foi distinguido pela sua abordagem inovadora na promoção de hábitos alimentares saudáveis, levando educação culinária prática a jovens em idade escolar. Na categoria Sustentabilidade na Transformação Digital, foram ainda atribuídas duas menções honrosas. Uma ao projeto Mesa Interactiva para Reabilitação e Promoção de Competências (Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação), por desenvolver uma solução de realidade virtual com jogos sérios para a reabilitação de sobreviventes de AVC. A outra menção honrosa foi para um estudante, também na categoria Sustentabilidade na Transformação Digital, com o projeto Advancing Patient-Centered Rehabilitation Care with eHealth (Serviço de Medicina Física e de Reabilitação da ULS de Gaia e Espinho e Faculdade de Medicina da Universidade do Porto), pela aplicação de tecnologias digitais como a plataforma SIMPLI.REHAB para modernizar a reabilitação.

Os vencedores foram selecionados por um júri presidido por Maria de Belém Roseira, que avaliou as candidaturas com base no seu mérito, inovação e potencial de impacto.

Tecnologia para traduzir sinais cerebrais em movimento físico através de mão robótica e realidade virtual no pós-AVC

O projeto UpReGain, liderado por um grupo de investigadores do Instituto de Sistemas e Robótica (ISR) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), está a testar a utilização de estratégias inovadoras e personalizadas para apoiar a reabilitação de pacientes que sofreram de acidente vascular cerebral (AVC)

Os primeiros ensaios estão a ser realizados com pessoas saudáveis, mas dentro de pouco tempo o projeto avançará para testes com pacientes de AVC.

“Neste projeto combinamos uma interface cérebro-computador (BCI) – que estabelece uma ligação direta entre o cérebro e dispositivos externos, sem recorrer a músculos ou nervos –, um exoesqueleto de mão robótica, que oferece feedback físico e somatossensorial, e ambientes de realidade virtual com elementos de gamificação. Esta combinação permite aos pacientes visualizar os movimentos num avatar e executar tarefas em contexto de jogo”, explica Aniana Cruz, investigadora do ISR e coordenadora do projeto UpReGain, citada em comunicado.

De acordo com a especialista, o objetivo principal é o uso da imaginação motora: ao imaginar abrir ou fechar a mão, o cérebro ativa as mesmas áreas motoras como se o movimento fosse realmente executado. Esse sinal cerebral, captado por electroencefalografia (EEG), é interpretado pelo sistema e transformado em feedback visual (mão virtual), físico (mão robótica) ou em atividades gamificadas (por exemplo: agarrar objetos, espremer frutas, encher um copo).

“O nosso objetivo é comparar abordagens distintas – imaginação motora com feedback robótico, com avatar virtual ou com jogos gamificados – e avaliar o impacto de cada uma em relação à terapia convencional. Pretendemos, também, uma reabilitação de acordo com o perfil de cada paciente e a sua evolução clínica, combinando EEG com Eletromiografia (EMG), uma técnica que regista a atividade elétrica dos músculos, em casos de movimento residual. Queremos, ainda, avaliar a viabilidade prática, nomeadamente no que diz respeito à preparação, calibração, tempo de utilização e aceitação, tanto pelos pacientes como pelos profissionais de saúde”, destaca Aniana Cruz.

O projeto UpReGain é liderado por uma equipa multidisciplinar do ISR, com investigadores especializados em BCI, realidade virtual, reabilitação e visão por computador, em colaboração com a Unidade Local de Saúde de Coimbra / Polo Centro de Medicina de Reabilitação da Região Centro – Rovisco Pais.

“O objetivo final é transferir a tecnologia BCI do laboratório para a prática clínica, contribuindo para aumentar significativamente a taxa e a qualidade da recuperação motora após um AVC”, resume a investigadora.

Europa não deverá conseguir cumprir metas de combate à resistência aos antimicrobianos até 2030

Dados publicados pelo Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC) mostram que a resistência aos antibióticos continua a aumentar na União Europeia e no Espaço Económico Europeu

O aumento do fenómeno de resistência, a par da falta de novos tratamentos eficazes, alimenta uma crise de saúde pública na Europa e a nível global.

Em 2023, o Conselho da União Europeia instou os Estados-Membros a assegurar que, até 2030, o consumo total de antibióticos nos seres humanos [na dose diária definida (DDD) por 1 000 habitantes por dia], nos setores comunitário e hospitalar combinados, incluindo em estabelecimentos de cuidados continuados e em contextos de cuidados domiciliários, seja reduzido em 20 %. Outra das metas era garantir a redução em 15 % a incidência total de infeções da corrente sanguínea por Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), comparativamente a 2019. Outro objetivo era reduzir em 10 % a incidência total de infeções da corrente sanguínea por Escherichia coli resistente à cefalosporia de terceira geração, e em 5 % a incidência total de infeções da corrente sanguínea por Klebsiella pneumoniae resistente a carbapenemas.

Ora, desde 2019, estima-se que a incidência de infeções da corrente sanguínea causada pela Klebsiella pneumoniae resistente aos carbapenemes tenha aumentado mais de 60 %. Já as infeções da corrente sanguínea por Escherichia coli resistente à cefalosporia de terceira geração aumentaram mais de 5 %.

O consumo de antibióticos também aumentou em 2024. A proporção de antibióticos de primeira linha utilizados, que deveriam representar pelo menos 65 % do total, mantém-se nos 60 %.

O ECDC estima que as infeções resistentes aos antimicrobianos causem mais de 35 mil mortes todos os anos na União Europeia e no Espaço Económico Europeu, um fardo substancial sobre indivíduos, sociedades e sistemas de saúde. Tudo isto tem consequências graves, como comprometer tratamentos como transplantes ou terapias oncológicas.

O envelhecimento populacional, com a carga de doença crónica associada, a transmissão transfronteiriça de microrganismos resistentes e o uso persistente de antibióticos, combinado com falhas na prevenção e controlo, contribuem para o aumento da prevalência de infeções difíceis de tratar. Além disso, o uso de antibióticos de primeira linha não está totalmente otimizado e a dependência de antibióticos de última linha tem vindo a aumentar.

 

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ULS Braga implementa projeto para doentes com dificuldade de comunicação verbal

‘Comunicar sem Voz’ é uma iniciativa que visa humanizar os cuidados prestados aos doentes com dificuldades de comunicação, nomeadamente aqueles submetidos a laringectomia ou traqueostomia, permitindo-lhes recuperar o direito de se fazerem ouvir

O serviço de Otorrinolaringologia (ORL) da ULS Braga evidencia diariamente os desafios vividos por doentes que, por motivos clínicos, perdem temporária ou permanentemente a capacidade de comunicar verbalmente.

Entre os casos mais frequentes encontram-se os doentes com tumores malignos da laringe, cujo tratamento implica, em muitos casos, a realização de uma laringectomia – cirurgia que remove a laringe e, com ela, as cordas vocais, inviabilizando a emissão de som pela via aérea natural. Também emergências, como traqueostomias por obstrução tumoral ou hemorragia, resultam numa perda abrupta da fala.

“Estes doentes enfrentam, no pós-operatório, uma realidade marcada por sentimentos de medo, angústia e frustração. A impossibilidade de expressar necessidades, emoções ou dores intensifica o sofrimento físico e emocional, dificultando ainda a prestação de cuidados de saúde adequados”, explica Sofia Osório, Enfermeira Gestora do Serviço de Otorrinolaringologia da ULS Braga, citada em comunicado da unidade de saúde.

Reconhecendo esta vulnerabilidade, a equipa de enfermagem do serviço procurou soluções que ultrapassassem os métodos tradicionais – como papel e caneta – frequentemente ineficazes face à debilidade física e emocional destes doentes. Foi neste contexto que nasceu o projeto ‘Comunicar sem Voz’, com a adoção da aplicação MagicContact, uma ferramenta de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), gratuita, desenvolvida pela Fundação Altice, em parceria com a Associação do Porto de Paralisia Cerebral (APPC) e o aTOPLab do Politécnico de Leiria.

A aplicação está já a ser utilizada no serviço de ORL da ULS Braga, permitindo aos doentes comunicar de forma simples, intuitiva e eficaz com os profissionais de saúde, com recurso a tablets, atenuando, assim, os níveis de ansiedade e promovendo uma maior autonomia e conforto. Esta solução tecnológica não substitui a voz, mas devolve ao doente algo essencial: a capacidade de participar ativamente nos seus cuidados, de manifestar necessidades básicas e de se sentir compreendido.

Atualizada norma relativa à nutrição entérica e parentérica

A Direção Geral da Saúde atualizou a norma n.º 017/2020, de 25 de setembro, relativa à Implementação da Nutrição Entérica e Parentérica em Ambulatório e no Domicílio, aplicável tanto à população pediátrica como adulta

A atualização, de 13 de novembro, alarga os critérios de identificação do risco nutricional, que incluem todos os doentes oncológicos em regime de ambulatório, e todos os utentes internados por um período superior a 24h, independentemente do diagnóstico clínico, nas primeiras 48 horas de internamento. Nos cuidados primários, incluem-se todos os utentes adultos com probabilidade aumentada de deterioração do estado nutricional. Já nos cuidados continuados integrados, incluem-se todos os utentes internados nas primeiras 48 horas.

Também se definem os dispositivos médicos necessários para a administração deste tipo de nutrição.

A identificação do risco nutricional deve ser realizada pela equipa assistencial multidisciplinar, com recurso aos instrumentos constantes no Anexo I, Nutritional Risk Screening 2002 (NRS 2002) 2-4 e Malnutrition Screen Tool (Adultos) e STRONGkids (Crianças).

A identificação do risco nutricional deve ser realizada pela equipa assistencial multidisciplinar, em articulação com o Serviço/Unidade de Nutrição, de acordo com as orientações definidas por cada unidade de saúde, e o diagnóstico de desnutrição deve ser realizado através do Sistema de Classificação Internacional de Doenças de vigor.

A norma pode ser consultada aqui.

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Portugal inicia partilha de dados de Saúde com Chipre

No âmbito da infraestrutura A Minha Saúde @ UE (MyHealth@EU), Portugal iniciou a partilha de dados de saúde com Chipre, fez saber a SPMS

Os cidadãos portugueses já podem partilhar, desde finais de outubro, o seu Resumo de Saúde Eletrónico com profissionais de saúde do Chipre. Além disso, as receitas emitidas em Portugal podem ser dispensadas em farmácias cipriotas, reforçando a continuidade dos cuidados prestados fora do país de origem.

Esta conquista resulta de um trabalho conjunto de várias equipas da SPMS, designadamente do Núcleo de Saúde Digital Global e Relações Internacionais, da Direção de Arquitetura, Negócio e Análise de Dados, do Centro de Controlo e Monitorização do SNS e da Direção de Sistemas dos Cuidados de Saúde.

A Minha Saúde @ UE tem como missão facilitar o acesso e a troca segura de informações clínicas entre profissionais de saúde europeus, contribuindo para uma resposta mais rápida, segura e eficaz a quem necessita de cuidados noutro país. Atualmente, esta rede abrange 16 Estados-Membros, promovendo a redução de erros médicos e a melhoria da qualidade dos serviços de saúde transfronteiriços.

Portugal participa na infraestrutura como país de afiliação (País A) e de tratamento (País B), permitindo a partilha do Resumo de Saúde eletrónico e a integração dos serviços de prescrição e dispensa eletrónica.

O país de afiliação é onde o cidadão tem o registo de saúde cujos dados serão partilhados. Por seu turno, o país de tratamento é onde o cidadão recebe cuidados de saúde e os dados são consultados ou utilizados.

É o 14º país com quem Portugal passa a partilhar dados de Saúde, juntando-se a Malta, Croácia, Luxemburgo, França, Estónia, Finlândia, Países Baixos, Espanha, República Checa, Polónia, Letónia, Lituânia e Irlanda.

 

FOTO TEROVESALAINEN/ ADOBE STOCK

Projeto recebe 10 milhões de euros para estudar como as células moldam o seu ambiente

O projeto RODIN (Cell-mediated Sculptable Living Platforms), onde participam a Universidade de Aveiro e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), acaba de conquistar uma Synergy Grant do Conselho Europeu de Investigação (ERC), no valor de 10 milhões de euros. É o maior financiamento alguma vez atribuído a Portugal no âmbito deste programa europeu

O consórcio internacional, liderado pelos investigadores João Mano (Laboratório Associado CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro, Universidade de Aveiro), Nuno Araújo (Ciências ULisboa) e Tom Ellis (Imperial College London), vai desenvolver materiais dinâmicos e flexíveis que as próprias células poderão moldar, estudando como estas interagem com o seu ambiente e constroem estruturas complexas semelhantes aos tecidos humanos.

O projeto RODIN reúne três equipas de referência europeia com competências complementares. Os investigadores da Universidade de Aveiro vão desenvolver microfilmes e estudar o efeito das células sobre as suas alterações geométricas. O grupo do Imperial College London irá programar microrganismos para libertar sinais bioquímicos em momentos precisos, dotando a estas plataformas um carácter “vivo”. A equipa de Ciências ULisboa será responsável pela modelação teórica e computacional, aplicando inteligência artificial para decifrar as interações entre células e materiais.

Esta combinação irá permitir a criação de plataformas experimentais para estudar como as células remodelam o seu ambiente, produzindo dados tridimensionais e temporais de alta resolução, que trarão informação para o desenvolvimento de novos biomateriais.

Os resultados esperados do projeto RODIN poderão ajudar a abrir caminho a materiais inteligentes capazes de promover a regeneração de tecidos e modelar doenças humanas em laboratório, reduzindo, por exemplo, a necessidade de testes em animais.

O nome do projeto inspira-se no escultor Auguste Rodin, considerado o pioneiro da escultura moderna, e mestre em captar o realismo e a vitalidade da forma humana.

FOTO: NATIONAL CANCER INSTITUTE/ UNSPLASH

Rede europeia lança proposta para reduzir desigualdades no acesso a cuidados oncológicos

Para promover a igualdade no tratamento de doença oncológica entre os cidadãos europeus, foi lançada em outubro de 2024 a Rede Europeia de Centros Compreensivos de Cancro (EUnetCCC), no âmbito do Programa EU4Health, que lança agora o seu White Paper, documento que estabelece como tornar o acesso a cuidados oncológicos mais equitativa para todos

A Rede Europeia de Centros Compreensivos de Cancro (EUnetCCC) divulgou a 7 de novembro o White Paper: Libertar o Potencial da Futura Rede de Centros Compreensivos de Cancro, na primeira Reunião Anual da EUnetCCC, em Paris, um documento histórico que apresenta uma visão concreta de como a Europa pode ofercer cuidados oncológicos equitativos e de alta qualidade para todos os seus cidadãos, independentemente da sua localização geográfica.

O cancro é a segunda principal causa de morte na Europa, responsável pela morte de 1,3 milhões de pessoas por ano e afetando 2,7 milhões de pessoas. O relatório apresenta um conjunto de recomendações que se traduz num cenário alarmante: se não forem tomadas medidas ousadas e coordenadas, as desigualdades entre países e regiões no que toca a prevenção, diagnóstico, tratamento e acesso a um sistema capaz de satisfazer as ambições europeias continuarão a aumentar.

O White Paper salienta que a atual Ação Conjunta da EUnetCCC terminará em 2028 e que o seu sucesso depende da transformação da rede numa infraestrutura europeia permanente e bem consolidada. O relatório adverte que, sem uma ação política decisiva, a Europa corre o risco de perder a mobilização sem precedentes alcançada até agora.

Para garantir o futuro da Rede, o White Paper estabelece as principais prioridades em matéria de políticas e investimentos:

  • Reconhecer a rede CCC da EU como uma prioridade estratégica e instrumento fundamental para implementar o Plano Europeu de Luta Contra o Cancro, a Missão Contra o Cancro, e criar efetivamente um Sistema de Saúde Europeu.

  • Posicionar a rede como uma plataforma unificadora e estruturada para implementar e ampliar as iniciativas da UE em matéria de cancro, para melhorar a competitividade da UE no setor da saúde e da inovação;

  • Assegurar uma base institucional e jurídica clara para a rede no âmbito da UE, a fim de garantir a sua sustentabilidade e elegibilidade para o apoio a longo prazo.

  • Estabelecer um mecanismo de governação de alto-nível, envolvendo a Comissão Europeia, os Estados-Membros e as principais partes interessadas para supervisionar a orientação estratégica e a coordenação da rede.

  • Assegurar um financiamento específico e a longo prazo da UE no futuro Fundo de Competitividade para apoiar a coordenação, manutenção e desenvolvimento da rede.

  • Estabelecer regimes de subvenções específicas da UE para apoiar o desenvolvimento de certificação e o reforço das capacidades dos CCC em desenvolvimento ou transição.

  • Garantir financiamento específico para o envolvimento dos doentes e Associações de Doentes a nível da rede e dos centros (incluindo remuneração, custos de participação, reforço das capacidades, ect.)

 O White Paper está disponível em: https://eunetccc.eu/files/pressKit/2025/November/eunetccc-white-paper.pdf

Estratégias antivirais para bloquear o vírus da gripe antes da infeção

Uma equipa de investigadores do Centro de Investigação Biomédica (CBR) da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa está a estudar uma estratégia antiviral capaz de bloquear a replicação do vírus da gripe antes de este infetar as células

 

“Se a metodologia que estamos a desenvolver funcionar para o vírus da gripe, é possível que funcione também para outros vírus”, afirma Maria João Amorim, investigadora e vice-diretora do Centro de Investigação Biomédica, citada em comunicado da universidade.

A equipa liderada por Maria João Amorim descobriu que o vírus que causa a gripe A – influenza A (VIA ou IAV) – utiliza compartimentos celulares específicos, designados inclusões virais, para montar o seu genoma composto por oito segmentos de ácido ribonucleico (ARN) por um processo seletivo, envolvendo interações inter-segmento RNA-RNA, e de elevadíssima complexidade que, até à data, não é inteiramente claro.

O grupo deu um passo em frente a desvendar este processo ao descobrir que estes compartimentos têm propriedades semelhantes às dos líquidos. Tais propriedades permitem que as moléculas se movam livremente e, desta forma, cada parte do genoma pode encontrar os seus outros sete interatores – um processo essencial para que o vírus se torne infecioso. A partir desta descoberta, os investigadores identificaram que dissolver ou endurecer estes condensados pode impedir a replicação viral.

“Os antivirais que venham a ser desenvolvidos poderão proteger pessoas não vacinadas, reduzir a gravidade da doença em infetados e controlar a propagação de vírus respiratórios e emergentes, reforçando a resposta da saúde pública perante futuros surtos,” explica a também docente da Faculdade de Medicina da Universidade Católica.

Numa altura  em que decorre a vacinação contra a gripe – Portugal foi o terceiro país da União Europeia com a maior cobertura de vacinação contra a gripe no último inverno, atingindo uma taxa de 71 %, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) – os antivirais podem representar uma segunda linha de defesa indispensável: protegem quem não está vacinado, reduzem a gravidade da infeção em pessoas que desenvolvem doença grave e ajudam a controlar a propagação de vírus que evoluem rapidamente ou que escapam à imunidade conferida pela vacinação.

“As vacinas continuam a ser a principal medida de prevenção, mas nem toda a população está imunizada e os vírus respiratórios evoluem rapidamente. Estas abordagens inovadoras procuram ultrapassar as limitações dos antivirais atuais – como a resistência e o espectro de ação reduzido – com o objetivo de identificar novos alvos virais que permitam desenvolver terapias eficazes contra vários vírus respiratórios, reforça Maria João Amorim.

A investigadora do CBR salienta também que “existem diversas doenças infeciosas para as quais ainda não há vacinas disponíveis, sendo o tratamento feito com antivirais, como no caso do VIH, Zika, Herpes simplex e vírus hemorrágicos como Nipah, Marburg ou Lassa.” Nestes casos, antivirais eficientes são essenciais para o tratamento e descobri-los é uma prioridade.

 

“Mini-proteínas” que impedem a entrada do SARS-CoV-2

No âmbito dos projetos de investigação BioPlaTTAR e EvaMOBS, a mesma equipa do CBR da Faculdade de Medicina da Universidade Católica, desta vez num consórcio que junta várias equipas Portuguesas do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier da Universidade Nova de Lisboa (onde se encontra o coordenador dos projetos Cláudio Soares) e do Gulbenkian Instituto de Medicina Molecular e 8 equipas internacionais de 7 países Europeus, está a desenvolver plataformas versáteis para desenhar moléculas antivirais inspiradas em anticorpos, que bloqueiam a entrada dos vírus nas células. Alguns dos testes iniciais incluem o vírus da gripe A, o SARS-CoV-2, o vírus da dengue, o vírus sincicial respiratório e o vírus Zika.

Os primeiros resultados mostram avanços promissores: no projeto BioPlaTTAR os investigadores já conseguiram desenhar mini-proteínas que impedem a entrada do SARS-CoV-2 nas células. Como próximo passo, Maria João Amorim partilha: “E essencial perceber quais as melhores formas de produzir estas mini-proteínas e qual a toxicidade associada ao seu uso num modelo animal, antes de poder avançar com a realização de ensaios clínicos”.